Para acabar com a Aids no Brasil

Data: 01.12.2014

O atendimento à Aids se deteriorou. Pode piorar se o Ministério da Saúde insistir em deslocar o tratamento para unidades básicas de saúde
Até o fim desta segunda-feira (1º) cem brasileiros serão infectados pelo vírus HIV e mais de 30 pessoas irão morrer de Aids. Com os recursos hoje disponíveis, não faz sentido tanto sofrimento e morte causados por uma epidemia controlável.

Progressos científicos, como o uso de medicamentos na prevenção à doença, permitem romper essa trajetória, desde que estejam apoiados na liderança com capacidade de diálogo, na retaguarda do sistema de saúde e na promoção dos direitos humanos daqueles grupos mais afetados pelo HIV.
O SUS (Sistema Único de Saúde) já preconiza o tratamento logo que o teste dá positivo, o que garante vida normal às pessoas com HIV e funciona como um freio da epidemia, pois quem usa corretamente os remédios não passa o vírus adiante.
Mas boa parte das pessoas infectadas não sabe que tem HIV. Dos que sabem, muitos não iniciam ou não recebem tratamento adequado. A qualidade dos serviços de atendimento à Aids deteriorou-se: meses separam o resultado positivo da primeira consulta e há pacientes sem atenção médica.
Tudo pode piorar com a insistência do Ministério da Saúde em deslocar o tratamento da Aids para as unidades básicas de saúde, no lugar de resgatar e ampliar os serviços de referência e especializados.

Campanhas de incentivo ao teste falam à população em geral e resultam em poucos diagnósticos, pois não chegam aonde a Aids está concentrada. Em outro improviso, em vez de profissionais do SUS serem escalados para levar o teste em horários e locais alternativos, nas comunidades vulneráveis, decidiu-se terceirizar para ONGs e transformar em “bico” o diagnóstico do HIV fora dos serviços de saúde.

A ampliação de uso de antirretrovirais tem custo alto. Se falta dinheiro ao SUS, o governo federal precisa dizer por que aceita pagar, tanto nos genéricos nacionais como nos importados patenteados, muito mais que outros países.
O Ministério da Saúde abandonou campanhas de alcance nacional que promovam ambientes sem discriminação. No Brasil é altíssima a prevalência de HIV entre grupos cujas práticas e identidades são estigmatizadas, entre eles gays e profissionais do sexo. A cada hora no país um homossexual é atacado por intolerância. É problema de saúde pública, pois o preconceito também afasta dos serviços de saúde e da prevenção justamente aqueles mais atingidos pela Aids.
Para que alguém possa se proteger do HIV, não basta assegurar seus direitos, assim como são insuficientes a determinação de praxe –“use camisinha”– ou mesmo as palavras de ordem surgidas mais recentemente –“faça o teste”, “inicie o tratamento” ou “tome comprimidos antes ou depois do sexo sem proteção”.
Desde que assegurados o acesso e a autonomia de escolha, é a oferta combinada de meios disponíveis –promoção de direitos, informação, preservativos, teste, tratamento, profilaxia pré e pós-exposição– que fará com que as pessoas se tornem senhoras de sua própria saúde, assumindo atitudes protetoras para si e solidárias com os demais.
Os ventos sopram contra a Aids, mas o governo federal precisa saber ouvir. Médicos, profissionais, gestores, ativistas, pessoas que vivem com HIV e pesquisadores estão a postos, unidos no corajoso compromisso coletivo de acabar com a epidemia.
CAIO ROSENTHAL, 65, infectologista, é membro do Conselho Regional de Medina de São Paulo
MÁRIO SCHEFFER, 48, é professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP

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