Conheça mais sobre a Hanseníase

Data: 21.07.2020

P 1 – O que é Hanseníase?

A Hanseníase, ou Mal de Hansen, é o nome correto para o que se conhecia antigamente como “Lepra”. É uma doença infecto contagiosa de evolução crônica, causada pelo Mycobacterium leprae.

 

P 2 – Como a hanseníase chegou ao Brasil?

A doença teria chegado à América do Sul por meio dos colonizadores espanhóis e portugueses. Não haviam descrições da Hanseníase entre os indígenas brasileiros (Opromola 2.000). A doença entrou no Brasil por meio dos colonizadores portugueses principalmente açorianos, sendo sua disseminação atribuída aos escravos africanos (Terra 1926 e Monteiro 1987).

 

P 3 – Porque no Brasil há mais casos que em outros países da América Latina?

Em 2001, a Organização Panamericana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS 2001), concluíram que todos os países sul americanos tinha Hanseníase, sendo o Brasil o que apresentava e continua apresentado a mais alta incidência e prevalência da doença no continente, devido à falta de ações publicas mais incisivas e pela escassez de profissionais especializados em prestar assistência aos portadores do Mal de Hansen.

 

P 4 – Quais são os números atuais da doença no Brasil?

Em 2018, foram registrados cerca de 30.000 “ casos novos” de Hanseníase no Brasil, perfazendo um total de 270.000 casos notificados. (Cruz 2019).

 

P 5 – Como as pessoas são contagiadas pela Hanseníase?

O Contágio ocorre principalmente de indivíduo para indivíduo, sendo as vias aéreas superiores e áreas da pele e/ou mucosas erosadas (feridas), as principais vias de eliminação dos bacilos, que também podem ser eliminados pela urina, fezes, suor, leite materno, secreções vaginais e esperma.

Os bacilos multiplicam-se no sistema nervoso periférico e na pele podendo atingir também outros órgãos e sistemas, com exceção do Sistema Nervoso Central.

O bacilo tem predileção pela célula neural, denominada célula de Schwan. Nela ele se hospeda e destrói os ramos nervosos sensitivos superficiais da pele que desencadeiam as lesões neurológicas, com manifestações na pele, por meio de manchas claras ou róseas, queda dos pelos e a perda das sensibilidades, térmica, dolorosa e tátil, nessa sequência das perda. A queixa principal dos pacientes é da presença das manchas claras ou róseas e “dormentes”.

 

P 6 – Há diferentes graus de contágio de Hanseníase?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os pacientes são classificados da seguinte maneira:

Paucibacilares (PB). Indivíduos com a presença de raros bacilos, representados pelas formas Indeterminada e Tuberculóide. Essas formas têm menor risco de contágio.

Multibacilares (MB).Pacientes com múltiplos bacilos, representados pelas forma Viechowiana ou Lepromatosa e os Dimorfos, que apresentam as formas Tuberculóide e Lepromatosa, na mesma lesão. Essas formas são altamente contagiosas.

O bacilo pode comprometer os ramúsculos nervosos com alterações essencialmente sensitivas (térmica, dolorosa e tátil). A doença pode progredir até afetar os troncos neurais periféricos, podendo levar à paralisia, com fraqueza muscular, atrofias e fixações articulares, conhecida como “Mão em Garra”.

Mão em Garra

Mão em Garra

 

Pode ocorrer alterações da sudorese, com ausência de transpiração na lesão cutânea.

Os nervos Trigêmio e Facial podem ser comprometidos, levando à paralisia facial, uni ou bilateral e das pálpebras.

 

P 7 – Que tipos de lesões a Hanseníase causa?

Lesões cutâneas:

Forma Indeterminada: é a primeira manifestação da doença, com manchas claras ou róseas (foto), com distúrbios da sensibilidade e da sudorese. As lesões podem estar localizadas em qualquer lugar da pele e, apresenta aos exames específicos, raros bacilos, sendo a sensibilidade térmica a primeira a ser perdida.

Mancha da forma Indeterminada

Mancha da forma Indeterminada

 

Forma Tuberculóide: caracterizada por placas bem delimitadas de cor rósea ou acastanhada, com contornos regulares em forma de circulo ou anel. Apresenta poucos bacilos e o comprometimento dos nervos , nessa forma, é intenso, precoce e assimétrico.

Lesão da forma Tuberculoide

 

Forma Virchowiana ou Lepromatosa: as lesões são de diversas formas ( foto), com cor rósea e contornos irregulares.

Lesão infiltrada da forma Virchowiana ou Lepromatosa

Lesão infiltrada da forma Virchowiana ou Lepromatosa

 

Após algum tempo, podem surgir lesões sólidas, violáceas e ferruginosas. Pode ocorrer ainda, perda dos cílios e dos supercílios, dando origem à chamada “Madarose” (perda parcial ou completa dos supercílios) . Há aumento do pavilhão auricular com nódulos isolados ou em “rosário”.

Lesão em pavilhão auricular da forma Lepromatosa

Lesão em pavilhão auricular da forma Lepromatosa

 

Essa forma apresenta múltiplos bacilos. As lesões da face, por serem numerosas e infiltradas, assumem o aspecto classicamente descrito como “fácies leonina”. Pode haver comprometimento do nariz, da mucosa oral, da laringe, dos olhos, dos gânglios linfáticos, do fígado, dos rins , do baço , das supra renais, dos testículos, da medula óssea e dos músculos.

Fácies Leonina

Fácies Leonina

 

Forma Dimorfa: as lesões apresentam características das formas Tuberculoide e Lepromatosa com muitos bacilos ao exame específico. Além da chamada Forma Bordeline

Reação da forma Lepromatosa

Reação da forma Lepromatosa

 

 

Bordeline

Bordeline

 

Estados Reacionais: a doença pode ser interrompida por fenômenos agudos ou subagudos denominados “Reações” (atribuída à morte dos bacilos). A reação tipo I ocorre nas formas Indeterminada e tuberculóie. A reação do tipo II , denominada “Eritema Nodoso Hanseniano” e que aparece nas formas Dimorfa e Lepromatosa , principalmente. Essas reações são caracterizadas pelo aumento e a exacerbação das lesões pré existentes, que podem evoluir com febre e dor, exigindo tratamento específico com Talidomida ou Corticóide

Lesão da forma Dimorfa

Lesão da forma Dimorfa

 

P 8 – Como é feito o diagnóstico da Hanseníase?

Exames: existem exames e testes específicos para se detectar a Hanseníase, como Biópsia com Exame Anátomo – Patológico; Pesquisa do bacilo na pele e nos lóbulos da orelha além dos testes de pesquisa de sensibilidade.

P 9 – Quais são os tratamentos para curar a Hanseníase?

Tratamento:

Adultos:

Formas Paucibacilares: Usa-se a Dapsona e a Rifampicina, por seis meses.

Cartela dos medicamentos do Paucibalar adulto

Cartela dos medicamentos do Paucibalar adulto

 

Formas Multibacilares:Dapsona, Clofazimina e Rifampicina, por dois anos ( estuda-se a possibilidade de redução nesse prazo).

Esquema Padrão do Multibacilar adulto

Esquema Padrão do Multibacilar adulto

 

Crianças:

Formas Paucibacilares Foto das cartelas e Multibacilares:Dapsona, Clofazimina e Rifampicina, de acordo com a forma da Hanseníase e o peso da criança, com a avaliação em seis meses.

Lembrar que a consulta, os exames e o tratamento são gratuitos e sempre realizados por Profissionais Médicos Especializados em Hanseníase.

Esquema Padrão de Paucibacila infantil

Esquema Padrão de Paucibacila infantil

 

Esquema Padrão de Multibacilar infantil

Esquema Padrão de Multibacilar infantil

 

P 10- O que ocorre com as pessoas que convivem com um doente de Hanseníase?

Uma vez diagnosticado o paciente como sendo portador do Mal de Hansen, todas as pessoas do seu convívio íntimo, denominadas “comunicantes”, são convocadas para os exames específicos.

Os Voluntários do Centro de Estudos e de Apoio à Dermatologia Sanitária – CEADS, atendem aos portadores de Hanseníase no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Existem ainda, numerosos ex portadores de Mal de Hansen, com sequelas da doença, entre elas o “Mal Perfurante Plantar”, que são feridas que podem permanecer nas regiões plantares, mesmo após a cura clínica da doença. Os curativos dos portadores de Mal Perfurante Plantar são realizados no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza.

A doença quando diagnosticada e tratada precocemente, faz com que: “A Hanseníase tenha Cura”.

 

Prof. Dr. Luiz Jorge Fagundes

Coordenador Científico do CEADS.

 

 

 

Bibliografia:

Cruz C. Bond L. Portadores de Hanseníase são segregados no Brasil, diz relatora da ONU.Viva Bem 2019 maio 15.Disponível em : htps://www.uol.com.br/vivabem/notícias da redação/2019/05/15/portadores-de-hansen-iase-são-segregados-n0- brasil-diz-relatora-onu.htm?.cmpid=cpiaecola&cupi=copiaecola

Monteiro YN. Hanseníase: história e poder no Estado de São Paulo.Hansenologia Internationalis.1987;12(1):1-7;1987.

Opromolla DVA. Noções de Hansenologia. Bauru: Centro de Estudos Dr. Reynaldo Quagliato;1981 e 2.000

Organizacion Mundial de La Salud. Organizacion Panamericana de la Salud . Lepra al dia: situacion de laeliminacion de la Lepra em algunos países de la America Latina. Bol Elimancion Lepra Américas. 2001;n9.

Sampaio SAP. Hanseníase. In: Sampaio SAP, Rivitti EA. Dermatologia. 3ª ed. São Paulo: Artes Médicas; 2007, p.624.

Terra F. Esboço histórico da lepra no Brasil. Anais brasileiros de Dermatologia, Rio de Janeiro,v.2 n.1 p.3-4,1926